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Gestão, custos e lucro

CMV em restaurante: como calcular e o que fazer com o número

CMV é o indicador que mais explica por que um restaurante cheio pode dar pouco lucro. A fórmula é simples; o valor está em saber o que fazer quando o número sai da linha.

Resposta rápida: o CMV (Custo da Mercadoria Vendida) é calculado como estoque inicial + compras do período − estoque final, e o CMV percentual é CMV ÷ faturamento do período × 100. Ele mostra quanto de cada real vendido foi consumido em insumo. Para acompanhar de verdade, calcule sempre no mesmo intervalo — mensal é o mínimo, semanal é o ideal.

Existe uma situação clássica: o restaurante está cheio, a equipe não para, o faturamento cresce — e o dinheiro no fim do mês continua apertado. Na maioria das vezes a explicação está no CMV.

Este guia mostra a fórmula, um passo a passo para fazer a conta sem erro, a diferença entre o CMV que deveria ter dado e o que deu de fato, e o que fazer em cada cenário quando o número sai da linha.

A fórmula

O cálculo tem duas partes. Primeiro o valor absoluto:

CMV = estoque inicial + compras do período − estoque final
CMV % = (CMV ÷ faturamento do período) × 100

Um exemplo com números redondos, só para fixar a mecânica (valores ilustrativos):

Estoque inicial R$ 12.000
(+) Compras do mês R$ 40.000
(−) Estoque final R$ 10.000
= CMV R$ 42.000
Faturamento do mês R$ 120.000
= CMV % 35%

Ou seja: de cada R$ 100 vendidos, R$ 35 foram para insumo. O que sobra precisa cobrir folha, aluguel, energia, taxas, impostos — e ainda gerar lucro.

Quanto vale um ponto de CMV

Para enxergar o peso do indicador, transforme o percentual em dinheiro. No exemplo acima, cada ponto percentual de CMV equivale a 1% de R$ 120.000, ou seja, R$ 1.200 por mês e R$ 14.400 por ano. Reduzir o CMV de 35% para 32% sem perder venda devolve R$ 3.600 por mês ao caixa. Faça a mesma conta com o seu faturamento: é ela que mostra se vale a pena gastar tempo com ficha técnica e contagem de estoque.

Passo a passo para calcular o CMV do mês

A fórmula só funciona se a coleta dos números for consistente. Siga esta ordem:

  1. Defina o período. Do primeiro ao último dia do mês, ou de segunda a domingo se o acompanhamento for semanal. A janela precisa ser a mesma para estoque, compras e vendas.
  2. Conte o estoque no mesmo momento. Sempre no fechamento do último dia ou antes de abrir no primeiro dia seguinte. Contar no meio do expediente mistura o que já foi consumido com o que ainda está na prateleira.
  3. Valorize o estoque com um critério fixo. Custo da última compra ou custo médio — tanto faz, desde que seja sempre o mesmo. Trocar de critério de um mês para o outro cria variação que não existe.
  4. Some as compras pela data de entrada. Vale a data em que a mercadoria chegou, não a data do pagamento do boleto. Compra paga em 30 dias entra no mês em que foi recebida.
  5. Use o faturamento de venda de produtos. Decida se taxa de entrega e taxa de serviço entram ou não no faturamento, e mantenha a decisão em todos os meses.
  6. Aplique a fórmula e registre o resultado. Um número isolado diz pouco. O histórico mês a mês é o que mostra tendência.

Os três erros que invalidam o cálculo

1. Contar compra em vez de consumo

Usar só o valor das compras do mês, sem ajustar pelo estoque, distorce completamente o número. Um mês em que você comprou muito para estocar aparece com CMV alto; o mês seguinte, artificialmente baixo.

2. Misturar períodos diferentes

Faturamento de um intervalo com compras de outro produz um resultado sem significado. Contagem de estoque, compras e vendas precisam cobrir exatamente a mesma janela.

3. Esquecer o que não foi vendido

Perda, quebra, cortesia, refeição da equipe e erro de cozinha consomem insumo sem gerar receita. Se você não registra esses itens, eles aparecem como CMV alto sem explicação aparente.

CMV teórico x CMV real: a diferença que revela o furo

A fórmula de estoque dá o CMV real: o que de fato saiu da despensa. Existe um segundo número, o CMV teórico, que é o que deveria ter saído se cada prato fosse montado exatamente como manda a receita. Ele é calculado multiplicando o custo da ficha técnica de cada item pela quantidade vendida no período.

Exemplo ilustrativo no mesmo mês de R$ 120.000 de faturamento:

Item Custo pela ficha Unidades vendidas Custo teórico
Hambúrguer da casa R$ 9,00 1.200 R$ 10.800
Prato executivo R$ 11,50 900 R$ 10.350
Refrigerante lata R$ 2,80 1.500 R$ 4.200
Demais itens do cardápio — — R$ 11.850
CMV teórico R$ 37.200 (31%)
CMV real (pela contagem) R$ 42.000 (35%)

A diferença entre CMV real e CMV teórico é o seu desvio. No exemplo, 4 pontos (R$ 4.800 no mês) saíram do estoque sem explicação pela receita: porção maior, perda, cortesia não lançada ou furo de controle. É esse valor que você persegue, não o CMV inteiro.

Sem ficha técnica não existe CMV teórico, e sem ele você só sabe que o custo está alto, não onde. Se ainda não tem as receitas padronizadas, comece pelo guia de como montar a ficha técnica de cada prato, priorizando os dez itens que mais vendem.

CMV alto: onde procurar a causa

Quando o número sobe, a causa está quase sempre em um destes cinco pontos:

  1. Porção sem padrão. Sem ficha técnica, cada pessoa monta o prato de um jeito. Variação de 10% na porção vira variação direta no CMV.
  2. Preço de compra que subiu sem repasse. O insumo aumentou e o preço do prato ficou igual.
  3. Desperdício e validade. Compra mal dimensionada, armazenamento ruim, giro lento.
  4. Preço de venda mal formado. Prato precificado por comparação com o vizinho, não por custo.
  5. Furo de controle. Saída de estoque sem registro de venda correspondente.

Quando a causa é desperdício, o caminho passa por compra e armazenamento — veja as práticas de como reduzir o desperdício de alimentos com controle de estoque.

Difícil calcular porque estoque e venda estão em lugares diferentes?
No Xefo, a ficha técnica fica no cadastro do produto e cada venda baixa do estoque os insumos usados no prato — o levantamento deixa de ser um projeto de fim de semana.

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Do número à ação: o que fazer em cada cenário

Cenário Primeira ação
CMV subiu e o faturamento ficou igual Revisar preço de compra dos 10 insumos de maior peso
CMV subiu junto com o faturamento Verificar padronização de porção no pico de movimento
CMV oscila muito de mês a mês Corrigir o processo de contagem de estoque antes de qualquer conclusão
CMV bom, mas lucro ruim O problema não é insumo — olhar folha, taxas de canal e despesas fixas

CMV por categoria e por canal

Um CMV único para a casa inteira esconde problemas. Separe pelo menos em dois recortes:

Por categoria

Comida, bebida e sobremesa têm custos muito diferentes. Uma bebida industrializada costuma ter custo proporcional bem menor que um prato montado na cozinha. Se as vendas de bebida caem num mês, o CMV geral sobe mesmo que nenhum prato tenha ficado mais caro. Acompanhar food cost e beverage cost separados evita conclusões erradas.

Por canal

O mesmo prato pode ter custos diferentes no salão e no delivery: embalagem, sachês, talheres descartáveis. E existem custos que não são CMV, mas comem a margem do pedido, como a comissão do marketplace. Ela não entra na fórmula, mas precisa entrar na decisão de preço por canal — a conta completa está em quanto custa vender no iFood. O marketplace segue útil para trazer cliente novo; o ponto é saber quanto sobra em cada canal.

O mesmo cuidado vale para o ticket médio. Aumentar o valor do pedido com itens de CMV alto faz o faturamento crescer sem levar o lucro junto. Quando você configurar sugestões de adicionais e combos, no cardápio digital ou no totem, priorize itens de boa margem — o raciocínio está em autoatendimento aumenta o ticket médio?.

CMV e preço de venda: a conta de volta

O CMV também serve para formar preço. Se você definiu que um prato deve trabalhar com CMV de 30% e a ficha técnica dele custa R$ 12 (valores ilustrativos), o preço mínimo é R$ 12 ÷ 0,30 = R$ 40. Abaixo disso, cada venda puxa o CMV da casa para cima. O método completo, com despesas fixas e margem, está em como precificar prato de restaurante sem chutar.

Rotina mínima de acompanhamento

  • Semanal: contagem dos 20 itens de maior valor (regra de Pareto — eles explicam a maior parte do custo).
  • Mensal: contagem completa e cálculo do CMV fechado.
  • Trimestral: revisão das fichas técnicas e dos preços de venda.

O CMV fica ainda mais útil ao lado de outros números da semana, como ticket médio e vendas por hora — veja o painel sugerido em indicadores que todo dono de restaurante deveria olhar toda semana.

Um CMV calculado uma vez é curiosidade. Calculado toda semana, vira instrumento: você percebe o desvio enquanto ele ainda é pequeno, em vez de descobrir no fechamento que o mês inteiro foi apertado.

Perguntas frequentes

Qual é um CMV bom para restaurante?

Depende do tipo de operação: bebidas e pizzarias costumam trabalhar com CMV percentual mais baixo, enquanto churrascarias e restaurantes por quilo trabalham com percentual mais alto. Mais importante que comparar com o mercado é comparar o seu CMV com o seu próprio histórico — a tendência revela mais que o número absoluto.

CMV e food cost são a mesma coisa?

Na prática, food cost é o CMV aplicado apenas a alimentos. Muitas casas calculam separado: food cost para comida e beverage cost para bebidas, porque as margens são bem diferentes e misturar esconde problema. Um bar com muita venda de bebida pode mostrar CMV geral bonito enquanto a cozinha perde dinheiro, e só a separação revela isso.

Preciso de sistema para calcular CMV?

Para calcular uma vez, uma planilha resolve. Para acompanhar toda semana sem parar a operação, é preciso que compras, estoque e vendas estejam no mesmo lugar — senão o levantamento consome mais tempo do que o dono tem. No Xefo, a ficha técnica baixa os insumos do estoque a cada venda, o que facilita comparar o consumo previsto com a contagem física.

Refeição da equipe e cortesia entram no CMV?

Entram no consumo, porque o insumo saiu do estoque. O que muda é a leitura: se você não registra essas saídas, elas aparecem como CMV alto sem explicação. O ideal é lançar refeição de funcionário, cortesia e perda como saídas separadas, para saber quanto do CMV veio de venda e quanto veio de consumo interno ou desperdício.

Embalagem do delivery entra no CMV?

Depende do critério que você escolher, e o importante é manter o mesmo critério todos os meses. Muitas casas incluem embalagem no custo do pedido de delivery porque ela só existe quando a venda acontece. Se preferir deixar fora, acompanhe a embalagem como custo variável separado, senão o delivery parece mais lucrativo do que realmente é.

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